Homilia Páscoa – 20081. A Morte Não Pode Mais Opor-se à Vida“Duelam forte e mais forte, é a vida que vence a morte”. A vida é mais forte. O amor supera e vence a morte. O silêncio da Vigília pascal está grávido de aleluia. Os que crêem em Cristo já podem preparar a festa, como as mulheres que, ao contemplar de longe o lugar em que depositaram o corpo de Jesus, teimavam em crer que a vida é mais forte e foram premiadas por sua fé e coragem. Nosso último inimigo foi vencido. As portas da vida que não termina foram abertas pelo primogênito dentre os mortos, a brilhante estrela da manhã. a. O simbolismo do fogo Reconhecido pelos antigos como um dos quatro elementos do mundo, o fogo é um princípio ativo. Suas características são certa “materialidade” ou “espiritualidade”, que o torna próximo a Deus. Tem capacidade de purificar e regenerar. Os ritos de purificação são bem conhecidos: basta lembrar as queimadas que preparam o mando verde da natureza; o crisol onde são purificados os metais etc. Em sentido translato, o fogo representa o amor, as paixões que se aninham nos corações. Na Bíblia, o fogo é sinal da presença e ação de Deus no mundo (1Rs 19,12), é expressão da santidade e transcendência divinas. As teofanias sob a forma de fogo marcam momentos ímpares da revelação de Deus – no Horeb (Ex 3, 2ss) e Sinai (19, 18ss) – e são importantes do ponto de vista da vocação de alguns profetas (Is 6,6; Ez 1,4; cf. 2Rs 2,11). Na liturgia da Vigília pascal, o fogo representa a grande teofania de Deus: a nova criação realizada na ressurreição de Jesus. b. O simbolismo da luz A luz é força fecundante, condição indispensável para que haja vida. Em oposição às trevas, símbolo do mal, da infelicidade, da perdição e da morte, a luz exalta o que é belo e bom. Na Bíblia, Deus é luz (Sl 27,1;Is 9,1). Jesus é a luz do mundo (Jo 8,12; 9,5). Quem crê se torna luz (Mt 5,14), reflexo da luz de Cristo (2Cor 4,6). A vida inspirada pela fé é um “caminhar na luz” (1Jo 2,8-11). A transfiguração de Jesus, manifestação de sua filiação divina, é uma antecipação da glória pascal que ilumina os que crêem. Entre todos os simbolismos que derivam da luz e do fogo, o círio pascal é a expressão mais forte por sua riqueza de significados. É a fusão da lua cheia de Nisan (símbolo da salvação pascal) e o rito da luz (quando, ao fim da tarde, os hebreus acediam as lâmpadas), que é uma ação pelo dom da luz. Representa Cristo ressuscitado, vencedor das trevas e da morte (os cravos do círio), Senhor da história (os algarismos), princípio e fim de tudo (A e Z), sol que não conhece acaso. É aceso com o fogo novo, produzido em plena escuridão, pois na Páscoa tudo renasce. A tipologia da luz é descrita no Exultet, que forma um todo orgânico com o anúncio da libertação pascal. A aclamação “Eis a luz de Cristo” é um memorial da Páscoa. A procissão com o círio marca a presença de Cristo no meio do seu povo. c. O simbolismo da água A água é símbolo da vida. Representa a eficácia do sangue redentor de Cristo, comparado à água que lava. A descida do catecúmeno à fonte batismal é assimilada à descida de Cristo à profundezas da terra. A imersão do círio pascal na água é a união do elemento divino com o humano, a força fecundante de Cristo, gerador de vida nova, para que todos os que se banharem nessa água fecundada se tornem filhos de Deus. (Estas considerações sobre os principais símbolos da Vigília pascal foram extraídas do Dicionário de Liturgia, Paulus, São Paulo, 2ª edição, 2001.) 2. Liturgia da palavraAs Leituras procuram das uma panorâmica da História da Salvação, desde a criação até a nova criação realizada na morte-ressurreição de Jesus. Grosso modo, representam as várias etapas dessa história. De fato, parte-se de Gênesis, 1,1-2,2, onde “tudo era bom” (I leitura). No sacrifício de Isaac e na fé de Abraão (Gn 22,1-18) estão prefigurados o sacrifício de Jesus e a adesão dos fiéis, pela fé em Cristo, ao projeto de Deus (II leitura). A libertação de Israel da escravidão (Ex 14,15-15,1) anuncia a libertação definitiva em Cristo e a “passagem” dos cristãos da morte à vida (III leitura). As crises de Israel no exílio em Babilônia (Is 54,5-14) suscitam a memória do amor perene de Javé por seu povo, sua esposa (IV leitura). As promessas de Deus se cumprem na história, fecundando de esperança a vida das pessoas (Is 55,1-11), e essas promessas atrairão todos os povos a Deus (V leitura). Quem foi infiel: Javé ou Israel? Baruc (3,9-15,32-4,4) exorta Israel a tomar consciência do que fez, convidando-o ao arrependimento (VI leitura). Esgotados todos os recursos para salvar o povo, Deus anuncia a nova aliança (Ez 36,16-17 a. 18-28), na qual ele será nosso Deus e nós seremos seu povo (VII leitura). Essa nova aliança foi selada na morte-ressurreição de Jesus (evangelho) e nós a renovamos em nosso batismo (Rm 6,3-11). Com o anúncio vitorioso: “Ele ressuscitou! Não está aqui!”, os cristãos começam a celebrar o memorial da presença de Deus no meio do povo (eucaristia ). Esse memorial se inicia com o batismo: mortos com Cristo, viveremos para Deus (epístola, liturgia batismal). Pe. Nilson sj Pároco. |